Alimentos Transgénicos

 

30 de Abril de 2010
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Alimentos Transgénicos – Perigos para a Agricultura, Ambiente e Saúde
Francisco Curado Teixeira
2004

O que são Alimentos Transgénicos ?

Os Alimentos Transgénicos, que também designaremos aqui por Alimentos Geneticamente Modificados (AGM) são produtos, destinados à alimentação humana ou animal, que incorporam Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Os OGM são desenvolvimentos da engenharia genética resultantes da manipulação laboratorial dos genes de plantas ou animais. A discussão que se segue prende-se com o cultivo e a comercialização de plantas manipuladas geneticamente, destinados à alimentação, e os riscos que tais actividades representam para a agricultura, o ambiente e a saúde.

Que informação nos é fornecida sobre os Alimentos Transgénicos ?

Estes produtos têm sido desenvolvidos nos laboratórios de algumas companhias norte-americanas e europeias e estão neste momento a ser cultivados e comercializados em diversos países. Ao consumidor é fornecida, em regra, pouca ou nenhuma informação, apregoando-se apenas as suas alegadas vantagens e esperando-se que os consuma de uma forma passiva sem ter noção dos perigos potenciais para a sua saúde, para o ambiente ou para a própria economia nacional ou regional.

Qual o interesse dos AGM ?

A engenharia genética permite a transferência de genes entre espécies de grupos biologicamente diferentes, combinando características de espécies que nunca se cruzariam naturalmente: é possível, assim, introduzir genes de um peixe num tomateiro, ou de um vírus em cereais, etc. O objectivo destas manipulações consiste normalmente na “criação” de um organismo com determinadas características que apresentem vantagens competitivas que serão depois transmitidas de geração em geração. Por exemplo, pode incorporar-se o gene de um bactéria numa espécie de milho para que este produza o seu próprio insecticida (é o caso do milho Bt da Monsanto), de forma a poder cultivar essa espécie de milho sem ter que usar insecticidas, ou usando o mínimo possível. A manipulação genética pode também ter como objectivo a alteração pura e simples de um gene, visando a alteração de algumas características indesejáveis de um determinado organismo. Pode alterar-se um gene do tomate para que este amadureça mais lentamente, o que trará vantagens em termos da sua distribuição. Outro dos argumentos promocionais das companhias que produzem este tipo de organismos é o de que as espécies alteradas são mais produtivas do que as correspondentes plantas tradicionais e, como tal, a sua adopção constituiria uma passo decisivo no sentido de acabar com a fome no mundo. Embora na maioria dos AGM, não existam vantagens do ponto de vista nutricional, ainda assim, as características já referidas acarretariam, só por si, vantagens consideráveis em termos económicos e sociais. Mas será que na prática as coisas funcionam assim? É o que discutiremos mais adiante.

Existem efeitos negativos ?

Esta é a questão central da presente discussão. Em principio as modificações introduzidas nos OGM deveriam ser benéficas para os agricultores, para o consumidor final, ou para o ambiente em geral. De outra forma não apresentariam qualquer interesse. Mas quais são os riscos de que tais alterações genéticas introduzam efeitos negativos inesperados ? As empresas produtoras de OGM afirmam que estes não apresentam quaisquer riscos. Sendo elas as responsáveis pela sua introdução no mercado e as principais interessadas na sua comercialização, nem seria de esperar que afirmassem outra coisa. Mas a verdade é que até hoje nem elas nem nenhuma outra entidade demonstraram a segurança desses produtos em termos alimentares, entre outros. Por outro lado, existem indícios dos sérios riscos que alguns destes organismos representam para a saúde e para o ambiente. Experiências efectuadas em laboratório, no âmbito de um estudo encomendando pelo governo norte-americano, mostraram que uma percentagem significativa dos ratos alimentados com tomate transgénico apresentavam necroses estomacais e outros morreram ao fim de pouco tempo, o que não aconteceu aos ratos alimentados com os tomates não-transgénicos. Na Alemanha, a morte de vacas que eram alimentadas exclusivamente com rações transgénicas levantou a suspeita de que os OGM estivessem na origem das mortes uma vez que nenhuma outra causa foi identificada. A companhia fornecedora daquele produto negou a relação causa-efeito entre o consumo da ração com OGMs e as mortes dos bovinos, mas aceitou indemnizar o criador de gado.

Estudos científicos recentes, nomeadamente um estudo encomendado pelo governo inglês, puseram também em evidencia os danos ambientais que tais organismos podem provocar quando cultivados em ambiente aberto. Também a saúde pública pode ser afectada por estes cultivos. Recentemente, nas Filipinas, verificou-se um surto de problemas respiratórios e intestinais entre os camponeses que habitam em redor dos campos de milho transgénico. Um grupo de cientistas independentes apresentou resultados de um estudo que aponta no sentido de as alergias que afectam os camponeses serem consequência da inalação do pólen de milho transgénico que contém a toxina Bt. Outras pesquisas, realizadas no Reino Unido e nos Estados Unidos, têm correlacionado o aumento de alergias com a introdução de cultivos e do consumo de produtos transgénicos. Lamentavelmente, os resultados da maioria destes estudos não são tornados públicos ou são manipulados de forma a evitar alertar o público para os riscos que os OGM comportam.

Sabe-se actualmente que os organismos geneticamente manipulados são instáveis – a sua configuração molecular altera-se com o tempo – pelo que os organismos que foram originalmente aprovados para comercialização, podem não corresponder aqueles que actualmente se encontram no ambiente. Como tal, não é possível atestar a sua segurança, dado que estes já não são os mesmos organismos que foram patenteados. A incerteza associada aos OGM é tal que nenhuma seguradora aceita fazer seguros relativos a estes produtos. Apesar das evidências dos perigos, os governos dos países principais produtores de OGM (nomeadamente os Estados Unidos da América) têm fechado os olhos aos problemas da segurança e têm vindo a aprovar o seu cultivo e comercialização sem existirem estudos científicos independentes que demonstrem a sua segurança. Fica a cargo das próprias companhias que os produzem atestar a sua inocuidade. Este tipo de procedimento faz-nos suspeitar do tipo de interesses e influências que estão em jogo.

O caso da contaminação de alimentos com milho Starlink ilustra os tipos de perigos a que os consumidores estarão sujeitos. Em 2000 a organização não-governamental Amigos da Terra descobriu, nos EUA, a presença de milho transgénico Starlink produzido pela Avensis em produtos destinados à alimentação humana. Este milho que produz a toxina Bt havia sido licenciado apenas para alimentação animal uma vez que havia a possibilidade de causar reacções alérgicas em seres humanos. Em consequência desta contaminação, centenas de produtos alimentares tiveram que ser retirados do mercado, o cultivo daquela variedade de milho foi suspenso e mais de 140.000 hectares de milho plantado teve que ser destruído. É interessante notar que a descoberta da contaminação não foi efectuada pelas agências governamentais responsáveis, mas sim por uma organização não-governamental, integrada numa coligação de organizações de alerta contra Organismos Geneticamente Modificados. Os organismos norte-americanos U.S. Environmental Protection Agency (EPA) e a Food and Drug Administration (FDA) não foram capazes de detectar e prevenir a contaminação da cadeia alimentar humana com este produto. Mas a contaminação não se limitou ao território dos EUA. O Japão e a Coreia do Sul importaram dos Estados Unidos milho contaminado com Starlink que chegou a ser usado na confecção de produtos alimentares. Outros casos de contaminação com sementes não aprovadas para alimentação humana ocorreram também na Argentina e em alguns países da Europa.

Que aceitação têm os OGM junto do consumidor ?

Os consumidores europeus e americanos na sua maioria rejeitam os produtos transgénicos. Uma das exigências fundamentais dos consumidores é a do direito à escolha: o consumidor exige ser informado sobre a presença de OGMs nos produtos colocados no mercado, de forma a poder optar. As sondagens de opinião pública efectuadas em países como a Inglaterra, a França, a Austrália, o Canadá e mesmo os Estados Unidos, mostram que a maioria dos consumidores não quer consumir produtos transgénicos e exige a sua rotulagem. De facto, na União Europeia (UE) existe uma obrigatoriedade de rotular todos os produtos que contenham uma certa percentagem (0,9% ou mais) de produtos geneticamente manipulados. Mas o mesmo não acontece noutros países, como por exemplo os Estados Unidos da América. As empresas produtoras de transgénicos opõem-se com veemência a este requisito de rotulagem. Alegando o principio da equivalência substancial – segundo o qual não existem diferenças do ponto de vista nutricional entre os AGM e os seus congéneres convencionais – elas consideram que os consumidores não precisam de ser informados sobre a incorporação de OGM nos alimentos. Mas não é só o consumidor final que recusa estes produtos. Um pouco por todo o mundo, da Índia aos Estados Unidos, tem havido manifestações e declarações de agricultores e de organizações que os representam, contra a utilização de sementes geneticamente manipuladas na agricultura. Outras organizações não-governamentais têm alertado para os perigos dos OGM. Esta rejeição dos OGM parece ser mais forte na Europa, enquadrando-se num contexto de procura cada vez maior dos produtos da agricultura biológica. Não se trata de posições retrógradas. Na verdade, o consumidor tem boas razões para ser cauteloso em relação aquilo que lhe oferecem para se alimentar.

As crises ainda recentes das “vacas loucas” e outras epidemias que têm obrigado ao abate e destruição de milhares de animais em muitos países da Europa, bem como outros escândalos alimentares (como as rações dos aviários contaminadas com produtos cancerígenos), evidenciam os perigos de uma agro-pecuária em regime de exploração intensiva orientada exclusivamente para o lucro, sem preocupações com o bem-estar animal e com os impactes na saúde dos consumidores. O que se está a promover actualmente com a introdução dos OGM é algo semelhante, em termos de procedimento, mas de consequências potencialmente muito mais graves, dado que os OGM uma vez libertados no ambiente não poderão ser eliminados ou controlados.

Esta posição do público europeu explica porque é que as principais empresas do ramo alimentar na Europa, desde a Nestlé à Coca-Cola e algumas das maiores cadeias de supermercados, como a Carrefour ou a Auchan assumiram publicamente o compromisso de eliminar os ingredientes transgénicos dos seus produtos.

Vantagens ou falsas promessas ?

Um exemplo paradigmático da falsa propaganda em favor dos AGM é o caso do “arroz dourado”. Este arroz foi geneticamente modificado para produzir beta-caroteno, um nutriente que o corpo humano pode converter em vitamina A. Desta forma, seria possível combater a cegueira provocada pela deficiência daquela vitamina que afecta milhões de crianças na Ásia, onde a alimentação se faz essencialmente à base de arroz. No entanto, para que o consumo deste arroz pudesse ter os efeitos que têm sido publicitados, uma criança asiática teria que comer diariamente cerca de quatro quilogramas de arroz cozido. Para além disso, uma vez que os asiáticos preferem o arroz branco, nomeadamente por razões culturais, seria necessário convencê-los a comer o arroz dourado, o que implicaria uma campanha de sensibilização à escala regional. Ainda que tal fosse possível, não é garantido que o organismo pudesse converter o beta-caroteno em vitamina A, devido à ausência de gorduras e proteínas na dieta alimentar das crianças sub nutridas. Muito mais eficaz do que tentar vender o arroz transgénico aos asiáticos, que deixaram de cultivar vegetais, uma vez convertidos à monocultura do arroz, seria convencê-los a comer o arroz não branqueado e a plantar vegetais nas zonas limítrofes das suas plantações de arroz. Isto resolveria a falta de vitamina A e de todas as outras vitaminas e minerais. É o que algumas organizações de ajuda humanitária têm estado a fazer, necessitando apenas, para tal, de apoio político e suporte financeiro.
O argumento segundo o qual os AGM ajudarão a acabar com a escassez de alimentos tem estado a ser usado como uma espécie de chantagem sobre os consumidores europeus: ao recusar os AGM, os cidadãos estariam a contribuir para manter o flagelo da fome que afecta milhões de pessoas em todo o mundo. A verdade é que no mundo existe excesso de alimentos, embora muitas pessoas morram de fome pelo simples facto de que não têm capacidade monetária para os comprar. E ninguém consegue explicar como é que as companhias, que agora propõem os transgénicos como a forma de combater a fome no mundo, vão distribuir a essas pessoas carenciadas sementes que são mais caras do que as convencionais e que todos os anos devem ser adquiridas novamente porque é ilegal guardar tais sementes de uma colheita para a seguinte. É sabido que o governo dos Estados Unidos tem efectuado uma espécie de chantagem com países subdesenvolvidos: ou aceitam os alimentos transgénicos ou não recebem ajuda alimentar. Esta é uma forma vergonhosa de quebrar a resistência que a maioria dos países do terceiro mundo , nomeadamente em África, tem demonstrado em aceitar os AGM. Assim, em vez de os ajudarem a desenvolver a sua agricultura de auto-subsistência, estão a contribuir para os tornar a longo prazo dependentes das empresas e dos países que produzem este tipo de alimentos.
Uma das alegadas vantagens das plantas transgénicas seria o facto de o seu cultivo usar menos produtos poluentes, tais como herbicidas, o que significaria uma diminuição dos custos de produção e uma menor poluição, com as consequentes vantagens em termos ambientais. Na verdade tal não está a acontecer. Na prática, o consumo de Roundup tem vindo a aumentar nas plantações de transgénicos que são resistentes àquele herbicida. O mesmo acontece com o milho Bt. A percentagem de milho tratado com pesticidas não diminuiu apesar desta espécie de milho produzir o seu próprio insecticida. Assim sendo, a quantidade total de insecticida no solo aumentou com o cultivo deste milho. Desta forma, os agricultores não só estão a ter custos mais elevados para cultivar as plantas transgénicas, como estão a contribuir para o desenvolvimento de ervas daninhas cada vez mais resistentes e outras super-pragas, o que por sua vez induzirá a aplicação de tóxicos cada vez mais fortes ou em maior quantidade. Isto vai certamente ao encontro dos interesses das companhias que vendem não só os cereais transgénicos mas também os respectivos herbicidas.
Mas estas não são as únicas desvantagens do cultivo de OGM. Estudos efectuados por universidades norte-americanas indicam uma perda de produtividade de 5% a 10% no caso da soja transgénica resistente ao Roundup. No caso do milho Bt, os ensaios apontam para ganhos de produtividade mínimos ou nulos. Assim, devido ao custo significativamente mais elevado das sementes transgénicas em relação às convencionais, aquela variedade de milho transgénico representa um prejuízo líquido para os agricultores. O algodão transgénico resistente ao Roundup, da Monsanto, tem-se revelado também desastroso em termos produtivos. Por estas razões, os fornecedores de transgénicos têm sido obrigados a pagar indemnizações a agricultores, apesar de continuarem a fazer publicidade que apregoa uma produtividade mais elevada.

Existe um outro factor preocupante que os agricultores devem ter em conta: o mercado a nível mundial, sobretudo na Europa, mas também na Ásia, está a fechar as portas aos AGM. Tal como já foi referido atrás, alguma das maiores empresas mundiais do ramo alimentar, incluindo a McDonalds, eliminaram os transgénicos dos seus produtos, em resposta à pressão dos consumidores. Em consequência desta crescente rejeição por parte do mercado internacional, os agricultores norte-americanos e canadianos, principais produtores de alimentos transgénicos, têm vindo a acumular milhares de milhões de dólares de prejuízos, que só os subsídios estatais podem compensar.

O problema da fidelização dos agricultores e a soberania alimentar
Perante este cenário não se vislumbra qualquer benefício para os agricultores. E uma vez que, para o ambiente em geral e para os consumidores, não têm sido demonstradas vantagens destes produtos, apenas as companhias multinacionais da industria agro-química, como a Monsanto, Dupont, Syngenta, Bayer, BASF e Dow, parecem lucrar com o mercado dos produtos transgénicos.

Os agricultores que praticam a agricultura convencional ou biológica poderão ser os mais gravemente prejudicados, uma vez que não existe um enquadramento legal que os proteja caso as suas culturas venham a ser contaminadas por OGM. As experiências de cultivo por todo o mundo mostram que os transgénicos contaminam os outros cultivos, através da polinização, mesmo a distâncias de alguns quilómetros. As consequências financeiras desta contaminação poderão ser dramáticas para o mercado dos produtos biológicos onde não é admitida qualquer contaminação com OGM, significando que, na prática, a agricultura biológica poderá estar condenada à extinção se os cultivos de transgénicos forem autorizados.

A utilização de sementes transgénicas torna os agricultores dependentes de uns poucos fornecedores a nível mundial que, para além das sementes, também fornecem os herbicidas de marca específicos que devem ser usados nos respectivos cultivos. Novas sementes de milho, soja, ou outras plantas transgénicas terão que ser compradas todos os anos, uma vez que não é permitido aos agricultores utilizar as sementes provenientes de cultivos de anos anteriores. Para além desta limitação, um agricultor que veja o seu cultivo contaminado acidentalmente por OGM provenientes de culturas vizinhas sujeita-se a ser processado em tribunal pelas empresas de sementes como a DuPont, a Monsanto ou a Syngenta, por estar a cultivar plantas transgénicas que não adquiriu. É o que tem estado a acontecer actualmente na América do Norte. Algumas daquelas empresas têm vindo a comprar as casas tradicionais de sementes, em diversos países, de forma a colocar este sector do mercado sob o seu domínio. Estão também a adquirir, em países subdesenvolvidos, direitos sobre plantas autóctones cultivadas tradicionalmente pelos respectivos povos há centenas ou milhares de anos. Desta forma, estão a adquirir direitos sobre a comercialização de plantas que não desenvolveram nem sequer descobriram, o que, no futuro, irá impedir os agricultores de as utilizarem sem a respectiva autorização daquelas empresas. Assim, os defensores dos AGM que afirmam querer contribuir para acabar com a fome no mundo, estão antes a contribuir para reduzir a diversidade das sementes e a abrir o caminho para o controlo mundial do sector alimentar por um pequeno grupo de empresas multinacionais.

A legislação actual protege o consumidor ?

Na União Europeia existe legislação que regulamenta os processos de avaliação e atribuição de novas licenças para produção e comercialização de AGM, incluindo a sua rotulagem. Segundo os mais recentes regulamentos comunitários, os alimentos destinados a consumo humano que contenham uma percentagem de 0,9% ou mais OGM, devem ser rotulados como tal. É também imposta a rastreabilidade dos ingredientes transgénicos, ou seja, deve ser registada a circulação deste tipo de ingredientes desde a sua produção (no campo) até ao produto final (no prato). As rações animais passaram também a ter que ser rotuladas. Portanto, aparentemente, existe uma legislação que tende a proteger o consumidor e o ambiente. Mas, na prática, existem lacunas graves nesta legislação que deixam uma elevada margem de risco no que toca à segurança alimentar dos consumidores. Por exemplo: os produtos (tais como ovos e lacticínios) obtidos dos animais criados com rações transgénicas não estão sujeitos a rotulagem; a rotulagem também não se aplica aos alimentos servidos em restaurantes e cantinas. Em termos de protecção da agricultura e do ambiente os novos regulamentos também não são suficientes. Assim, a rotulagem das sementes contendo transgénicos não é obrigatória e não está definido um limiar de contaminação por OGM permitido em sementes convencionais. Não estão definidas normas de responsabilidade ambiental que estabeleçam quem deve pagar os danos provocados pelos OGM em caso de impactes ambientais negativos.

Aquilo que se está a verificar nos países com alguns anos de experiência no cultivo e na comercialização de AGM mostra que a contaminação não ocorre apenas através da polinização cruzada nas sementeiras, mas também ao longo de toda a cadeia de produção e transporte e que já não é possível, na prática, controlar a contaminação. Desta forma, o consumidor deixa de ter, efectivamente, qualquer direito de opção. O mesmo poderá vir a ocorrer na Europa, a curto prazo.

Quais os riscos concretos para Portugal

Portugal é um país com um elevado potencial para a agricultura biológica. Seguindo a tendência europeia, a procura dos produtos biológicos no mercado nacional tem vindo a crescer significativamente, fomentando assim o tipo de agricultura que mais se compatibiliza com a protecção do ambiente, com o tipo de propriedade minifundiária e a exploração agrícola de cariz familiar que é mais geradora de emprego a nível local, ajudando à fixação das pessoas nas regiões rurais. O número de agricultores, sobretudo jovens, que se têm iniciado ou convertido à agricultura biológica tem vindo a crescer nos últimos anos. No entanto, todo este panorama pode ser destruído pela introdução das culturas de OGM, uma vez que estas virão inevitavelmente contaminar as culturas circundantes de produtos afins. Também os agricultores convencionais sofrerão os impactes deste tipo de contaminações, uma vez que no mercado europeu o consumidor tem vindo a rejeitar estes produtos. Perante o risco de contaminação, os armazenistas ou outros intermediários terão que passar a fazer testes laboratoriais aos produtos que recebem, para verificar se contêm transgénicos, aumentando assim o seu custo.

Uma das medidas destinadas a evitar a contaminação de culturas vizinhas pelos OGMs, que tem vindo a ser discutida, consiste na criação de “zonas tampão” entre cultivos. Na prática, esta medida é ineficaz, uma vez que o pólen pode ser transportado pelo vento a quilómetros de distância, tornando inviável a criação de zonas tampão, sobretudo em regiões em que a propriedade agrícola é de pequenas dimensões. A contaminação é portanto inevitável e as consequências para a agricultura nacional poderão ser desastrosas.

A posição da comunidade científica.

Em diversos países, grupos de cientistas têm-se mostrado cautelosos e têm alertado os respectivos governos para os riscos que a libertação dos OGM no ambiente e a sua introdução na alimentação representam . Alguns dos cientistas que assim actuaram têm sido prejudicados nas suas carreiras ou mesmo afastados dos seus lugares por porem em causa as políticas governamentais que apoiam o cultivo de OGM e os lobbies da indústria. Apesar disso muitas são as vozes que, no seio da comunidade científica, continuam a advogar a aplicação do princípio da precaução. Existem muitos outros investigadores que não se mostram tão preocupados com os potenciais danos que os OGM podem acarretar e têm aconselhado os decisores políticos no sentido da sua aprovação. Alguns destes cientistas acusam os que se opõem à disseminação dos transgénicos de serem anti-científicos ou mesmo anti-progresso. É importante que se saiba que muitos destes cientistas que se dedicam à investigação na área da biotecnologia temem que a rejeição dos OGM por parte do público ponha em causa o financiamento das suas investigações. Também é importante esclarecer que embora algumas figuras proeminentes da comunidade científica se mostrem favoráveis aos transgénicos e afirmem que estes são inofensivos, não existem estudos científicos credíveis que demonstrem a segurança deste tipo de alimentos na alimentação humana ou animal e portanto os seus argumentos, neste domínio, não assentam numa base científica. Encontramo-nos, assim, perante um confronto de interesses que coloca de um lado motivações de índole financeira às quais a comunidade científica não é alheia e de outro lado um conjunto de pessoas, cada vez maior e mais representativo da sociedade, preocupadas com a sua segurança alimentar. Neste contexto, a opinião do cidadão comum, informado, que se preocupa com as questões ambientais e de saúde, tem tanta importância como a de qualquer especialista.

O que pode fazer o consumidor para se proteger ? E o poder político ?

Poderá pensar-se que, apesar de todas as pressões dos lobbies da indústria agro-química, o consumidor tem sempre a palavra final. Uma vez que a rotulagem de produtos contendo OGM é obrigatória na UE o consumidor pode optar por produtos alternativos. No entanto essa capacidade de opção, a médio e longo prazo, poderá deixar de existir, pelo menos para alguns produtos, se não forem tomadas medidas adequadas. É, pois, importante que o consumidor assuma um papel mais activo e informado na defesa da sua soberania alimentar. Para tal, poderá associar-se a Organizações Não-Governamentais que um pouco por todo o lado se preocupam com este assunto e têm vindo a exercer pressão junto dos governantes no sentido de que o Princípio da Precaução seja aplicado neste domínio.

A preocupação cada vez maior dos cidadãos com este tipo de questões não pode deixar de se reflectir nas políticas dos governantes e do próprio poder local. De facto, a administração local pode assumir um papel decisivo nas decisões sobre estas matérias. Um pouco por toda a Europa e também, recentemente, nos EUA e na Austrália, tem-se vindo a observar tomadas de posição de governos regionais e administrações locais contra a introdução de cultivos de OGM, em nome do Princípio da Precaução – tendo em vista a protecção do ambiente e a segurança alimentar dos cidadãos.
Numa Europa em que o consumidor se tem vindo a tornar cada vez mais exigente em relação à qualidade, as regiões só têm a ganhar com a protecção dos produtos autóctones. Esta deveria ser uma preocupação dos municípios que apostam no turismo de qualidade como factor de desenvolvimento. Será, portanto, a altura de os municípios portugueses, sobretudo aqueles em que a actividade agrícola assume uma dimensão significativa, despertarem para esta realidade e começarem a tomar posição sobre esta matéria. Estarão desta forma a defender não só os interesses da sua região, mas também a contribuir para a defesa do ambiente, da economia nacional e de um património que é de todos nós.

Nota final

Uma boa parte da informação contida neste artigo foi retirada, com a devida autorização, da publicação ” Alimentos Transgénicos – Um guia para consumidores cautelosos” editada em 2003 pela Universidade Católica Editora, da autoria da Drª Margarida Silva, especialista em biologia molecular e professora na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa.

Para mais informações, contacte a Plataforma Transgénicos Fora do Prato (PTFP), por correio, para o Apartado 5052, 4018-001 Porto, através de fax para o número 229759592, por e-mail para info@stopogm.net ou acedendo à página web da PTFP em : www.stopogm.net .

Fonte: Semente do Futuro

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